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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Contracanto





Contracanto


Aqui longe do sol que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei


Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem das mós


Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.


(José Saramago)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Canto de Esperança


Dentro de mim e de ti
Algo de novo estremece
A vida abre-se e ri
Na hora que se entretece

Vultos parados e sós
Mudez da alma sozinha,
Tomai o corpo e a voz
Da vida que se adivinha.

Canta mais alto, avança e canta,
Lança-te á marcha não te afastes,
Mistura a tua voz à voz que se levanta
Das chaminés e dos guindastes.

Rasgam-se os céus e a terra,
A esperança cai e refaz-se
É o grito de uma outra guerra
Canto do homem que nasce.

Tomam forma consistente
As ilusões encobertas
Caminha, caminha em frente
Para as novas descobertas.


Canta mais alto, avança e canta,
Lança-te á marcha não te afastes,
Mistura a tua voz à voz que se levanta
Das chaminés e dos guindastes.

Molda em teus dedos leais
Um destino á tua imagem
Ao ódio dos vendavais
Ergue uma viva barragem.

Da lama do tempo imundo
Arranca a felicidade
Homens humanos do mundo
Homens de boa vontade.

Canta mais alto, avança e canta,
Lança-te á marcha não te afastes,
Mistura a tua voz à voz que se levanta
Das chaminés e dos guindastes.

Mário Dionísio/Luís Cília

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Fala do Homem Nascido



Venho da terra assombrada
Do ventre da minha mãe.
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui.
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca pra comer
E olhos pra desejar.
Tenho pressa de viver
Que a vida é água a correr.

Tenho pressa de viver
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao Norte.
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham.
Nem forças que me molestem
Correntes que me detenham.

Quero eu e a natureza
Que a natureza sou eu.
E as forças da natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar.

Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

Venho da terra assombrada
Do ventre da minha mãe.
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui.
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Canto do desertor



Oh mar… oh mar…
Que beijas a terra,
Vai dizer à minha mãe
Que não vou p`rá guerra.

Diz, oh mar, à minha mãe,
Que matar não me apraz
No fundo quem vai à guerra
É aquele que a não faz.

Vou cantar a Liberdade,
Para a minha Pátria amada,
E para a Mãe negra e triste
Que vive acorrentada.

Mas a voz do nosso povo,
No dia do julgamento,
Te dirá a ti, oh mar.
E dirá de vento a vento,

Quem são os traidores,
Se é quem nos rouba o pão
Ou se nós os desertores
Que à guerra dizemos «Não».